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O toque que acolhe: porque terapias manuais também são ferramentas de reparação

Durante séculos, o corpo da mulher negra foi tocado sem consentimento, sem cuidado e sem escuta. Um corpo historicamente objetificado, violentado, medicalizado de forma fria ou simplesmente ignorado quando gritava de dor. Nesse contexto, falar sobre toque terapêutico não é apenas falar de técnica, é falar de reparação.

Na Fisioterapia, especialmente nas terapias manuais, o toque não é invasão. Ele é linguagem. Ele comunica segurança, presença e respeito. Para muitas mulheres negras, esse pode ser o primeiro espaço em que o corpo é tocado com intenção de cuidado genuíno, sem pressa, sem julgamento, sem desumanização.

A ciência já reconhece que o estresse crônico, tão comum na vida de mulheres negras expostas ao racismo estrutural, impacta diretamente o sistema musculoesquelético, o sistema nervoso e o eixo hormonal. Dores difusas, tensões persistentes, fadiga, distúrbios do sono e dor crônica não surgem do nada. Elas são, muitas vezes, respostas de um corpo que passou tempo demais em estado de alerta.

É aí que a fisioterapia assume um papel que vai além do alívio da dor física. O toque terapêutico bem conduzido regula o sistema nervoso, reduz níveis de cortisol, melhora a percepção corporal e devolve ao corpo a sensação de pertencimento. Não é exagero dizer: o toque que acolhe ajuda o corpo a sair do modo sobrevivência.

Para a mulher negra, que aprendeu desde cedo a ser forte, a aguentar e a silenciar desconfortos, deitar-se em uma maca e permitir-se ser cuidada é um ato profundamente político. É o rompimento com a ideia de que descanso é privilégio, de que dor é normal, de que pedir ajuda é fraqueza.

Na prática clínica, a fisioterapia se torna um espaço de escuta ativa. Cada tensão muscular carrega uma história. Cada limitação de movimento pode revelar anos de sobrecarga emocional e física. Quando o profissional entende esse corpo a partir de sua realidade social, cultural e afetiva, o tratamento ganha outra dimensão. Ele deixa de ser apenas corretivo e passa a ser restaurador.

Terapias manuais não “apagam” o racismo vivido, mas ajudam a reorganizar os efeitos que ele deixa no corpo. Elas devolvem autonomia, presença e consciência corporal. Elas ensinam que o corpo não precisa estar sempre pronto para lutar, ele também pode descansar, sentir prazer, respirar fundo.

Cuidar da saúde da mulher negra exige mais do que protocolos. Exige sensibilidade, escuta e compromisso ético. Exige reconhecer que o toque, quando feito com respeito e intenção, não trata apenas músculos e articulações, ele reconstrói vínculos entre a mulher e o próprio corpo.

Porque quando o toque acolhe, ele não só alivia a dor. Ele repara histórias.

Erika Machado: Fisioterapeuta – Especialista em Fisioterapia Neurofuncional, Dor Crônica e Osteopatia, com 14 anos de experiência clínica. Atua com foco em cuidado humanizado, terapia manual e reabilitação funcional. Docente e Palestrante, acredita na escuta ativa, na ciência e no acolhimento como pilares essenciais do processo terapêutico, promovendo autonomia, bem-estar e qualidade de vida.

View Comments (8)

  • A terapia mania salva e cura, as vezes mais do que remédios e deveria ser um tratamento ofertado no sistema público

  • Uma excelente profissional cheia de amor, carinho e respeito por cada pessoa que ela cuida.
    Obrigada por tudo Erika 😊🥰😘

  • "o corpo não precisa estar sempre pronto para lutar, ele também pode descansar, sentir prazer, respirar fundo."
    Sim, em destaque o que tanto me chamou a atenção, pois em meio a tantas dores sofridas por muitas mulheres, e especificamente as negras, vejo que estamos mudando o nosso olhar diante dos fatos, visto que o toque consciente e eficaz demonstra sim o cuidado e aconchego que tantos precisamos em um mundo que nos primórdios jamais pensou em mudar está história.
    Hoje por meio da terapia manual podemos ver que o toque faz toda a diferença, muda a vidas, muda a histórias, transforma dor em alívio e acima de tudo em acolhimento.

  • Érika, minha querida, é muito bom que pessoas como você estejam preocupadas com o outro. Deus te abençoe!!!

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