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Empreender na Bahia sendo mulher negra: entre a coragem e o cansaço

Sempre que falo sobre empreendedorismo feminino na Bahia, faço questão de começar pelos dados. Não porque eles contém toda a história — mas porque ajudam a desfazer muitos mitos. Somos 672 mil mulheres donas de negócio no estado, representando 34,5% dos empreendedores baianos. E, diferente do que ainda se imagina, a maioria está formalizada: 77% possuem CNPJ.

Mesmo assim, quando olho mais de perto para quem são essas mulheres, a sensação é de déjà-vu. Vejo trajetórias marcadas por coragem, persistência e trabalho duro — mas também por cansaço, frustração e limites que parecem não se mover.

A maioria dessas empreendedoras é mulher negra. SE-TEN-TA E OI-TO POR CEN-TO, para ser exata. São, em geral, microempreendedoras individuais, sem sócios, atuando no setor de serviços, quase sempre em pontos físicos. Estão na faixa dos 35 aos 54 anos, têm ensino médio, trabalham muito e, ainda assim, vivem com uma renda mensal entre um e dois salários-mínimos.

E aqui é importante dizer: não estamos falando de negócios improvisados. São empreendimentos com dois anos ou mais de existência. Negócios que resistiram. Que atravessaram crises. Que sustentam famílias. Que, em muitos casos, ainda geram emprego para outras pessoas.

Então, por que continuam operando tão perto do limite?

Porque, no setor de serviços, se a dona não está, o negócio não anda. Porque o tempo dessa mulher é disputado entre o trabalho, a casa, os filhos, os cuidados. Porque o crédito quase nunca chega — e quando chega, vem sem orientação, com medo embutido e risco alto demais. Porque falar de gestão financeira parece simples, mas é quase inviável quando falta tempo, apoio e linguagem acessível.

E, claro, porque ainda existe o preconceito. Às vezes explícito, às vezes sutil. Está na desconfiança do cliente, na dificuldade de negociar preço, no olhar que questiona a competência antes mesmo do serviço ser entregue. Isso cansa. E mina.

Quando escuto essas mulheres, a frase que mais me atravessa é: “meu negócio funciona, mas não cresce”. E isso não é falta de talento, nem de esforço. É falta de estrutura.

Por isso, me incomoda profundamente quando o empreendedorismo é vendido como solução mágica. Empreender, por si só, não transforma. O que transforma é ter condições reais para crescer. É crédito pensado para a realidade do pequeno negócio. É educação financeira prática, que caiba na rotina. É acompanhamento, e não ação pontual. É rede de apoio. É reconhecimento.

Fortalecer o empreendedorismo negro feminino na Bahia não é caridade, nem favor. É inteligência econômica. São negócios que já existem, já movimentam territórios, já sustentam vidas. O que falta não é vontade — é política, é estratégia, é decisão.

Enquanto isso não acontece, para muitas mulheres negras, empreender segue sendo menos sobre realização e mais sobre resistência. E resistência, a gente sabe, tem custo. Cansa. Mas também aponta, com clareza, onde a mudança precisa acontecer.

Fonte: PNAD, continua, 2024.

Rosa Gonçalves: Mulher negra, cria da periferia, especialista em Pequenos Negócios e entusiasta do Empreendedorismo Feminino, Diversidade e Inclusão.
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