O Carnaval de Salvador nem sempre refletiu plenamente a força negra que o sustenta. Durante muito tempo, embora majoritário na cidade e essencial na construção da festa, o povo preto não ocupava os espaços centrais das avenidas como protagonista. Essa chave começa a virar nos anos 1970, quando surgem os blocos afro, não como entretenimento isolado, mas como projeto coletivo de afirmação.

Fundado em 1974, no Curuzu, o Ilê Aiyê inaugura um novo tempo. Em plena ditadura militar, afirmar a negritude como valor estético, histórico e político era um gesto ousado. O Ilê não apenas desfilou: reposicionou o povo negro no centro do Carnaval, apresentando temas africanos, organização e uma estética que educava enquanto encantava. A partir dele, outros blocos afro surgem como continuidade dessa consciência em expansão.
O Malê Debalê, inspirado na Revolta dos Malês, leva para a avenida a memória da resistência negra islâmica na Bahia. O Olodum, nascido no Pelourinho, transforma o samba-reggae em linguagem global, projetando Salvador no mundo. O Ara Ketu consolida essa sonoridade nos grandes circuitos, ampliando o alcance popular do movimento. O Muzenza, por sua vez, conecta a diáspora negra ao incorporar influências do reggae e do rastafari, expandindo o horizonte simbólico do Carnaval.
Esses blocos não apenas abriram alas: criaram caminhos. Sua presença organizada, altiva e coletiva nas avenidas redefiniu quem podia ocupar o centro da festa. Sem pedir licença, mostraram que o povo preto não era plateia, mas autor e condutor do Carnaval. Tratava-se de um gesto político sofisticado, exercido pela excelência musical, pela estética e pela consciência histórica e não pelo confronto direto.
Essa compreensão se aprofunda quando a memória viva fala. Em entrevista ao Podcast – PodmaisPretas, Lazzo Matumbi evidencia que aquele momento não foi apenas cultural, mas fundacional. Ao revisitar o surgimento dos blocos afro, ele revela que desfilar era também um ato de coragem coletiva: atravessar espaços antes negados com beleza, disciplina e consciência de si. Os blocos afro não entraram no Carnaval, eles reescreveram o significado da festa.
Fora do período carnavalesco, esse legado se expande. Os blocos afro se estruturam como instituições comunitárias, formando gerações por meio de projetos culturais, educativos e sociais. Fortaleceram identidades, elevaram a autoestima coletiva e ajudaram a construir uma consciência negra pública em Salvador, que ecoa até hoje.
É importante distinguir: blocos afro têm como eixo central a afirmação da ancestralidade e da identidade negra; os afoxés se organizam a partir das tradições religiosas de matriz africana; já os blocos de trio operam prioritariamente no campo do entretenimento. Essa diferença explica por que os blocos afro ocupam um lugar singular na história da cidade.
Hoje, celebrações institucionais e eventos que exaltam Salvador como capital afro reafirmam esse legado como patrimônio vivo. O Carnaval só se tornou verdadeiramente universal quando assumiu sua alma negra. E essa alma segue pulsando, lembrando que ocupar as avenidas foi apenas o começo — porque a maior obra dos blocos afro é a construção contínua de pertencimento, dignidade e grandeza para o povo preto.


