O Carnaval representa muito mais do que quatro dias de folia no calendário brasileiro, e no nosso, da nossa extraordinária Bahiaaaa, são 8 dias!

É um fenômeno social complexo, um marco temporal que interrompe a rotina e convida a uma suspensão temporária das regras cotidianas. Sob as lentes da psicologia, este período revela um intricado jogo entre libertação e consequência, euforia coletiva e solidão individual, celebração e fuga. Enquanto multidões se entregam aos ritmos contagiantes, um silencioso drama emocional se desenha nos bastidores da festa, exigindo um olhar atento sobre a saúde mental, que se faz indispensável.
Para muitas pessoas, a energia coletiva, a dança e a música criam uma atmosfera de euforia que pode contribuir para o alívio de tensões e promover uma sensação genuína de felicidade e bem-estar, temporariamente. A festa pode ser um espaço legítimo para expressão pessoal e conexão social autêntica. No entanto, a linha que separa a celebração saudável do escapismo perigoso é tênue e frequentemente ultrapassada.
Existe um preço entre a ilusão da fuga e a “ressaca emocional”, mediante á pressão social, e muitas vezes pessoal, para aproveitar ao máximo, associada à ideia do carnaval como uma “válvula de escape” universal, essa linha de raciocínio pode criar uma armadilha. Algumas pessoas, trocam a possibilidade de vivenciarem momentos de alegria, lançando-se em um ciclo de excessos, desde o excesso de álcool, como outros estímulos de comportamentos na tentativa de anestesiar desconfortos emocionais pré-existentes, como estresse constante, ansiedade, depressão, burnout ou uma profunda tristeza. O álcool, em particular, é utilizado por muitos como um duplo agente: oferece uma desinibição momentânea, mas seu efeito depressivo subsequente é implacável.
A ciência agora reconhece e nomeia a consequência direta desse comportamento: a “ansiedade da ressaca” ou hangxiety. Estudos recentes, confirmam uma “associação significativa” entre ressacas e o aumento de emoções negativas como ansiedade, estresse e depressão. Quem já é propenso à ansiedade ou utiliza a bebida para lidar com problemas tornasse mais vulnerável a esse efeito. O cenário se agrava quando, sob o efeito de substâncias, a pessoa age de maneiras que violam seus próprios valores, gerando depois intensos sentimentos de vergonha, arrependimento e autocrítica severa.
Quando as luzes dos trios se apagam e o silêncio volta a ocupar os espaços, onde pode surgir o que nomeamos como “ressaca emocional”. É o choque brutal entre a intensidade da festa e a rotina, que de repente parece árida e sem graça. O organismo, submetido a uma mudança brusca de contexto, reage com desânimo, irritabilidade e uma profunda sensação de vazio, especialmente quando as expectativas de felicidade obrigatória não se concretizaram. A quarta-feira de cinzas, então, pode se transformar não em descanso, mas no confronto com uma realidade que, para alguns, parece uma “prisão” mental.
No contexto geral a autopreservação é o maior ato de resistência e amor-próprio que cada um de nós pode exercer, mesmo estando em um ambiente mais prolongado de descontração generalizada e possível desinibição, o seu sinal de alerta para sua autopreservação precisa emergir como um farol essencial a te guiar…. Maior do que um instinto de sobrevivência física, trata-se da capacidade ativa de proteger a sua saúde mental e emocional, promovendo autocuidado e resiliência. No Carnaval, essa prática se traduz em atos concretos e, por vezes corajosas.
Saber reconhecer os próprios limites físicos e emocionais, identificar os gatilhos de desconforto e honrar a necessidade de recarga, mesmo em meio à agitação. Ela se manifesta na permissão para não estar em festa o tempo todo, no direito de recusar mais uma dose ou de se retirar de ambientes que geram ansiedade, isso é parte do seu próprio autoconhecimento.
Por tanto, que tal prestar atenção aos sinais de cansaço físico e esgotamento emocional?
- Delineação clara de limites: Saber dizer “não” a situações, substâncias ou pessoas que geram desconforto, entendendo que este é um ato de amor-próprio.
- Conexão com valores pessoais: Manter ações alinhadas com o que se acredita, mesmo em contextos de descontração coletiva.
- Busca por apoio seguro: Garantir que se está acompanhado por pessoas de confiança e estabelecer combinados prévios de cuidado mútuo.
O Carnaval, em sua essência, nunca foi ou será o problema. Ele funciona como um espelho social ampliado, refletindo de maneira mais intensa e colorida nossas buscas, nossas carências e nossos desejos. O desafio que ele propõe é o de aprender a celebrar sem aniquilar a si mesmo, a conectar-se com o outro sem perder a conexão consigo mesmo, com sua própria essência.
Cuidar da saúde neste período é um ato de coragem e sabedoria.
Significa entender que a fantasia mais importante não é a que vestimos no corpo, mas a que conseguimos tirar da alma: criando a fantasia em que precisamos “ser outra pessoa” para sermos felizes, a de que a sua dor pode ser afogada em um copo, a de que seus limites são negociáveis. A verdadeira liberdade carnavalesca, aquela que não deixa rastros de culpa nem ressaca na alma, talvez seja a liberdade de ser você mesmo, com responsabilidade, com respeito e com a gentileza profunda de quem sabe que, depois da festa, a vida continua, e é preciso estar inteira para vivê-la.
A folia pode acabar, mas o compromisso com o próprio bem-estar deve ser sua prioridade.
Afinal, a maior conquista que podemos trazer do carnaval não é um adereço ou uma lembrança efêmera, mas a consciência preservada e o coração em paz, prontos para os ritmos, ora frenéticos, ora suaves, da sinfonia do cotidiano da vida.


