No território Velho Chico, o Carnaval não é um evento isolado no calendário. Ele é um processo cultural contínuo, tecido ao longo do ano por comunidades ribeirinhas que transformam memória em estética, trabalho em celebração e história em movimento.
Às margens do Rio São Francisco, a folia assume um ritmo próprio, guiado pelas águas, pela ancestralidade e por uma economia criativa que nasce do chão do território.

Longe dos grandes circuitos turísticos, o Carnaval do Velho Chico se afirma como uma das expressões mais autênticas da cultura popular brasileira, onde cada detalhe — do figurino ao batuque — carrega sentidos profundos.
1. Bastidores e estética: quando o território vira linguagem visual e sonora
Antes de ocupar as ruas, o Carnaval do Velho Chico acontece nos bastidores comunitários, onde garagens, quintais, associações culturais e barracões improvisados se transformam em verdadeiros ateliês coletivos. Ali, costureiras, artesãos, músicos e artistas visuais constroem uma estética que não segue tendências de mercado, mas dialoga diretamente com o território.
As fantasias e adereços bebem da paisagem ribeirinha: o cristalino do rio, os tons terrosos das margens, o verde resiliente da caatinga. Redes de pesca viram capas, fibras naturais ganham forma de cocares, sementes e palhas compõem figurinos que contam histórias. É uma estética marcada pelo reaproveitamento, pela sustentabilidade e pelo respeito aos saberes tradicionais.
A sonoridade também nasce do chão. Os tambores ecoam ritmos afro-brasileiros, sambas de roda, batidas que dialogam com a religiosidade popular e com a herança negra e indígena do território. Os ensaios são abertos, intergeracionais, espaços de transmissão de conhecimento onde crianças aprendem observando e jovens experimentam novas fusões musicais, sem romper com a tradição.
2. Economia criativa: o Carnaval como motor de renda e permanência
O Carnaval no Velho Chico é, também, um importante vetor econômico. Diferente de modelos concentrados, aqui a renda circula de forma descentralizada, fortalecendo pequenos empreendedores e trabalhadores da cultura. Costureiras, músicos, técnicos de som, produtores culturais, cozinheiras, ambulantes e artesãos encontram na festa uma oportunidade concreta de sustento.
A cadeia produtiva se inicia meses antes da folia. Oficinas de percussão, confecção de figurinos, produção de instrumentos, criação de estandartes e ensaios movimentam a economia local. Durante o Carnaval, o turismo de base comunitária ganha força, impulsionando pousadas familiares, bares, restaurantes e o comércio informal.
Mais do que gerar renda pontual, o Carnaval contribui para a permanência das pessoas no território. Jovens artistas encontram espaço para criar sem precisar migrar; mestres da cultura são reconhecidos como agentes econômicos e culturais; saberes tradicionais se transformam em trabalho digno.
É a economia criativa em sua forma mais orgânica: aquela que nasce da identidade e retorna para a comunidade.
3. História, ancestralidade e pertencimento: o Carnaval como ato de resistência
A história do Carnaval no Velho Chico é atravessada por resistência. Em diferentes períodos, a festa foi espaço de denúncia, afirmação cultural e celebração da vida em territórios marcados por desigualdades históricas. Os blocos, muitas vezes, surgiram como resposta à exclusão, carregando narrativas de luta, fé e sobrevivência.
A presença negra é estruturante. Os ritmos, os corpos em movimento e as referências simbólicas revelam a força da ancestralidade afro-brasileira e quilombola. Há também influências indígenas e sertanejas, compondo uma identidade plural, profundamente enraizada no território.
Mais do que uma festa, o Carnaval do Velho Chico é um ritual coletivo de pertencimento. Ele reafirma o direito à cultura, à memória e à alegria. Ao ocupar as ruas, as comunidades dizem ao Brasil que ali existe um território vivo, criativo e produtor de sentidos, um lugar onde o rio não apenas corta a paisagem, mas sustenta modos de vida.
No Velho Chico, o Carnaval não termina na Quarta-feira de Cinzas. Ele permanece nas mãos que criam, nos corpos que dançam e no fluxo constante do São Francisco, que segue narrando histórias enquanto corre.
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