Saúde mental, corpo e permanência no empreendedorismo negro

Empreender, para muitas pessoas negras, nunca foi apenas uma escolha profissional. Foi — e ainda é — uma estratégia de sobrevivência. Diante de um mercado que historicamente nos nega acesso, estabilidade e reconhecimento, criar o próprio negócio se tornou caminho possível, necessário e, muitas vezes, inevitável. Mas pouco se fala sobre o custo emocional e corporal dessa decisão.
A pergunta que quase nunca aparece nas rodas de negócio é simples e profunda: quem cuida de quem empreende?
O discurso dominante sobre empreendedorismo costuma exaltar a resiliência, a produtividade e a capacidade de “dar conta de tudo”. Para pessoas negras, essa narrativa se torna ainda mais perversa, porque se mistura com uma herança histórica de resistência forçada, onde descansar sempre foi visto como luxo e parar, como fracasso. O resultado disso é um número crescente de empreendedores adoecidos, ansiosos, exaustos e solitários — sustentando negócios enquanto seus próprios corpos pedem socorro.
No empreendedorismo negro, o corpo não é apenas instrumento de trabalho. Ele é o próprio negócio. É o corpo que atende, cria, vende, resolve, cuida, se expõe, negocia e sustenta. Ignorar os sinais desse corpo não é sinal de força; é um risco real de ruptura. Ansiedade, insônia, dores constantes, irritabilidade, esgotamento emocional e perda de sentido não surgem do nada — são respostas a um modelo que exige performance constante e oferece pouco ou nenhum cuidado.
Há também um peso simbólico que recai sobre quem empreende sendo uma mulher negra. Além de gerir o negócio, muitas carregam a expectativa de representar, inspirar, puxar outras, sustentar famílias e comunidades inteiras. O propósito, que deveria ser fonte de sentido, muitas vezes vira sobrecarga. E quando o cansaço chega, vem acompanhado de culpa: “não posso parar”, “tem gente contando comigo”, “já sofremos demais para desistir agora”.
Mas a verdade é dura e precisa ser dita: negócio nenhum se sustenta em um corpo adoecido. Não há crescimento possível quando a base está em colapso. Permanecer no empreendedorismo negro exige mais do que técnica, estratégia e acesso a crédito. Exige cuidado. Exige escuta. Exige redes de apoio que entendam que saúde mental não é fragilidade, é condição de permanência.
Cuidar de quem empreende é uma responsabilidade coletiva e política. Passa por políticas públicas, por espaços de troca reais, por iniciativas que coloquem o bem-estar no centro e não como um bônus. Passa também por uma mudança de mentalidade: descansar não é desistir, pausar não é falhar, pedir ajuda não é fraqueza.
Nossos ancestrais nos ensinaram sobre resistência, mas também sobre comunidade, partilha e cuidado. Permanecer é um ato ancestral tanto quanto começar. Por isso, pensar o empreendedorismo negro a partir do corpo e da saúde mental não é desvio de rota — é retorno à raiz.
A pergunta permanece, ecoando como chamado e compromisso: quem cuida de quem empreende?
Enquanto a resposta não for estrutural, que ao menos seja construída em coletivo, com dignidade, consciência e afeto. Porque cuidar de quem sustenta o negócio é, no fim, cuidar da continuidade da nossa própria história.


