O Carnaval costuma ser apresentado como o grande momento do ano para quem empreende. A época da virada, do faturamento alto, da chance de finalmente “fazer caixa”. Mas essa narrativa não dá conta da realidade de muita gente. Para muitos empreendedores, especialmente no empreendedorismo popular e negro, o Carnaval começa bem antes da festa. Começa com cálculo, medo, expectativa e uma pressão silenciosa que atravessa o corpo e a mente: tem que dar certo.

Esse “tem que” não é força de expressão. Ele nasce do investimento antecipado, do estoque comprado com sacrifício, das contas acumuladas e da ausência de uma rede de proteção que sustente quem arrisca empreender. A ansiedade financeira se instala de forma concreta: noites mal dormidas, pensamento acelerado, dificuldade de concentração, irritabilidade. Não se trata de fragilidade emocional, mas de um estado permanente de alerta imposto por um contexto que exige muito e oferece pouco amparo.
Enquanto isso, as redes sociais reforçam outra narrativa. Barracas cheias, vendas altas, histórias de sucesso que parecem se repetir do lado de lá da tela. A comparação, quase inevitável, vira mais um gatilho. Mas comparar resultados sem comparar condições é uma violência silenciosa. Estruturas são diferentes. Capitais são diferentes. Apoios também. Afroempreendedores, em especial, costumam acessar menos crédito, assumir mais riscos e operar com margens mais apertadas. Ainda assim, são cobrados como se partissem do mesmo lugar. Essa conta não fecha — e o custo emocional recai sobre quem já está na ponta.
No período que antecede o Carnaval, muitos negócios se endividam para conseguir funcionar. Empréstimos, cartão de crédito, fiado, acordos improvisados. Não por ousadia, mas por sobrevivência. Existe um discurso perigoso que romantiza esse risco como coragem empreendedora, quando, na prática, o que está em jogo é a possibilidade de seguir existindo. Viver com tudo apostado em poucos dias de faturamento gera medo constante, tensão acumulada e a sensação de que qualquer erro pode custar caro demais.
Quando a folia acaba, vem o silêncio. O movimento diminui, o corpo cobra o esforço feito e as contas chegam. Junto com elas, emoções difíceis de nomear: frustração, tristeza, vergonha, autocobrança. Pouco se fala sobre o impacto emocional do pós-Carnaval em quem empreende. Sobre o cansaço acumulado. Sobre o vazio que fica quando a expectativa não se confirma. Sem espaço para elaborar esse momento, o risco de adoecimento psíquico aumenta, e a pessoa passa a acreditar que falhou sozinha, quando, na verdade, está lidando com um sistema inteiro que empurra riscos para quem tem menos proteção.
Falar de saúde mental no empreendedorismo não é frescura, nem sinal de fraqueza. É falar de permanência, de continuidade, de dignidade. Cuidar da mente passa por planejamento emocional, por redes de apoio, por pausas possíveis e, sobretudo, por poder falar sobre o que não deu certo sem medo de julgamento. Passa por reconhecer que descansar também é parte do trabalho e que ninguém sustenta um negócio saudável adoecendo por dentro.
Se o Carnaval não trouxe o retorno esperado, isso não define o valor, a capacidade ou o futuro de quem empreende. O adoecimento não é individual, é estrutural. Empreender não pode custar a saúde. E nomear isso, com honestidade e cuidado, é um passo fundamental para que outras formas de existir e trabalhar sejam possíveis.


