Um convite a atravessar o que não se vê
Há blocos que passam pela avenida.
E há aqueles que atravessam o tempo.

Quando o Bloco Afro Os Negões entra em cena, o que se apresenta ao olhar é dança, percussão, cor e potência coletiva. Mas o que realmente se manifesta é outra camada: uma memória ancestral que não foi autorizada a virar monumento, mas que insiste em permanecer viva. Os Negões não desfilam apenas no Carnaval de Salvador — reencenam, ano após ano, o Congo invisível que estrutura a Bahia negra.
Fundado em 1982, o bloco se estabelece como corpo político, cultural e simbólico em movimento. Não como espetáculo exótico, mas como afirmação: o carnaval também é território de consciência, pedagogia e reparação histórica.
História e fundação: quando existir já era um ato político

Os Negões nascem em fevereiro de 1982, em um contexto em que a cultura negra ainda precisava justificar sua presença nos espaços de visibilidade. O bloco foi criado por um grupo de militantes, artistas e esportistas — em sua maioria jogadores de basquete — que frequentavam juntos as festas de largo de Salvador. No período do Carnaval, porém, esse mesmo grupo acabava dividido entre diferentes blocos afro da cidade.
Para não continuarem separados durante a folia, decidiram criar um bloco próprio. Assim surge o Bloco Afro Os Negões de 1,80m — uma referência que, mais do que altura física, simbolizava postura, consciência e afirmação identitária em um país que insiste em diminuir corpos negros.
Segundo Paulo, presidente do bloco, o ingresso nos primeiros anos obedecia a critérios rigorosos. Para fazer parte, era necessário ser convidado por um integrante já existente. Mais do que isso, a pessoa precisava demonstrar identificação com a cultura afro-brasileira, além de conhecimentos históricos, culturais e sobre as questões étnico-raciais.
Não bastava vestir a fantasia. Era preciso compreender o que aquele corpo, aquele nome e aquele desfile representavam na avenida.
Em 1995, o bloco rompeu com a exigência simbólica da altura física e passou a permitir o ingresso de mulheres e homens com menos de 1,80m, ampliando o acesso sem abrir mão do fundamento central: consciência negra, pertencimento e compromisso cultural.
Congo, Angola e a África que nunca foi passado

O enredo “Congo: o Império Invisível da Bahia” não opera no campo da metáfora rasa. Ele propõe uma leitura histórica crítica: reconhecer que a Bahia foi — e continua sendo — profundamente moldada pelas matrizes Congo/Angola, mesmo quando essas presenças foram apagadas dos registros oficiais.
Os Negões recusam uma África romantizada ou congelada no passado. O que o bloco apresenta é uma África diáspora, estratégica, política e contemporânea, cujos saberes atravessam estética, espiritualidade, organização social e resistência cultural.
A avenida se transforma, assim, em sala de aula, altar e arquivo. Cada figurino, cada coreografia e cada batida carrega códigos que narram aquilo que a história oficial preferiu silenciar.
Política cultural como prática cotidiana

Os Negões não tratam política cultural como discurso abstrato. Ela se manifesta na prática, no cotidiano e na permanência.
Ao longo de mais de quatro décadas, o bloco desenvolveu ações contínuas de formação e inclusão: cursos profissionalizantes, oficinas de dança afro, percussão, capoeira, costura, estética negra, alfabetização de jovens e adultos, pré-vestibular, projetos em unidades prisionais, seminários sobre relações étnico-raciais e iniciativas de geração de renda.
Em 2000, o bloco ampliou ainda mais sua atuação ao participar da criação do Fórum das Entidades Negras, ao lado de Ilê Aiyê, Muzenza e Malê Debalê. O Fórum se consolidou como espaço de articulação política entre blocos afro, fortalecendo pautas comuns relacionadas à cultura, combate ao racismo estrutural, políticas públicas e reconhecimento institucional.
Esse movimento reafirma Os Negões como ator político-organizativo, não apenas cultural. Quando o Estado falha, o bloco constrói.
Corpos, estética e o direito de existir inteiro
Um dos gestos mais emblemáticos dos Negões é o Concurso Negro Lindo, criado para valorizar a estética negra masculina — historicamente marginalizada, criminalizada ou invisibilizada.
Aqui, beleza não é medida por padrões eurocentrados. É afrovisualidade, pertencimento e afirmação política. O corpo negro não aparece como alegoria, mas como sujeito central da narrativa.
A dança segue o mesmo princípio. O bloco desenvolve uma linguagem corporal própria, que dialoga com tradições africanas, contemporaneidade e identidade urbana. Ao formar gerações de dançarinos e dançarinas, Os Negões ensinam mais do que passos: ensinam autorreconhecimento.
A música como arquivo vivo da diáspora

Desde 2004, o Festival de Música e Artes dos Negões ocupa papel central na construção da memória do bloco. Mais do que escolher a música que será cantada na avenida, o festival se torna um espaço de homenagem a personalidades negras que contribuíram de forma concreta para a sociedade brasileira.
A musicalidade dos Negões funciona como arquivo sonoro da diáspora: samba, ritmos afro-brasileiros, percussões ancestrais e invenções contemporâneas coexistem como linguagem política e afetiva.
Experiência viva: o bloco como quilombo em movimento
Viver Os Negões é compreender o bloco como um quilombo contemporâneo. Um espaço onde corpos negros podem existir sem tradução, sem concessão e sem pedido de licença.
A experiência não termina quando o desfile acaba. Ela se prolonga nas oficinas, nos encontros, nos projetos educativos, nos rituais, nos registros audiovisuais e no documentário Axé, Irmãos, que organiza fragmentos dessa história como patrimônio vivo.
Os Negões não desfilam para entreter. Desfilam para lembrar, educar, curar e reivindicar.
Quando a avenida vira território de reparação
Os Negões provam, ano após ano, que o Carnaval pode ser mais do que espetáculo: pode ser ato político, rito ancestral e projeto de futuro.
Ao tornar visível o Congo invisível da Bahia, o bloco reafirma que a cultura negra não é apêndice da história brasileira — ela é fundação.
E enquanto houver tambor, corpo em movimento e memória compartilhada, Os Negões seguirão fazendo da avenida um território onde existir, lembrar e resistir continuam sendo gestos inseparáveis.
*Essa publicação faz parte do Especial AFRO BAHIA.

