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Pare de pedir licença:  sobre mulheres negras, excesso de explicação e o silêncio que a gente escolhe

A executiva negra entra na sala com a resposta na ponta da língua. Estudou o caso, conhece os números, sabe o caminho… e mesmo assim, gasta dez minutos construindo ponte. Detalha o processo inteiro, discorre sobre o próprio currículo pra dar mais fundamentação, antecipa objeções, que ninguém fez, deixa escapar um “não sei se estou sendo clara” no meio do caminho. Quando termina, a sala já perdeu o fio e ela, a autoridade. Essa é uma cena que já  vi e ouvi dezenas de vezes  nas minhas mentorias. Não se trata de incompetência, longe disso,  é excesso de defesa disfarçado de transparência.

A gente aprendeu cedo que mulher negra bem-comportada não incomoda. Que autoridade sem açúcar vira “negra raivosa”. Que se não explicarmos três vezes, somos lidas como “sem repertório”. Que ocupar espaço sem pedir licença é ser “exibida”. Que ser assertiva é ser “metida”. A arquitetura da nossa fala foi moldada por um duplo juízo: o de gênero, que nos pede doçura, e o de raça, que nos pede silêncio. E a gente aprendeu a se proteger com detalhes, com justificativas, com um excesso de educabilidade que nunca recebeu reciprocidade. Perdemos tempo demais tentando ser aceitas antes de ser ouvidas.

Hoje, não precisamos mais ser silenciosas nem “fofas”. Podemos, sim, com base na nossa personalidade e identidade, expressar o que somos, o que queremos, o que temos a oferecer nos ambientes de liderança. E se quisermos usar o silêncio, que seja estratégico, como pausa que respira antes da resposta, como ponto que gera atenção, como expectativa que constrói tensão antes de um anúncio direto. O silêncio pode ser arma quando escolhido, não quando imposto.

E, no geral, a saída pra nós, mulheres negras, não passa por falar menos. Passa por falar de forma estruturada e assertiva. No mundo corporativo: decisão primeiro, contexto depois, e só se pedirem. A afirmação no tom de quem já sabe, não de quem está pedindo aprovação. A diferença entre “acho que a gente poderia” e “a direção é esta” não está no conteúdo. Está na postura. E postura se constrói. Se ensina. Se repete até a própria voz soar familiar, mesmo quando tentarem rotulá-la.

Eu trabalho com isso e vejo essa transformação.  Vejo mulheres encontrando sua melhor versão e chegando à sala  com uma comunicação afiada. Sem pedir desculpas pelo espaço, sem medo de ser “aquela negra mesmo”. Porque ser aquela negra é exatamente o que a gente precisa.

Categories: Colunistas
Silvana Oliveira: Jornalista, estrategista de comunicação, presença e fundadora da SOW.
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