Entre a verticalização acelerada e a venda de áreas verdes, Salvador expõe como a retirada do verde compromete conforto, saúde e a experiência coletiva de viver a cidade.

Há um tipo de vazio que não aparece nas plantas arquitetônicas nem nos memoriais descritivos. Ele se forma nos espaços entre as construções, onde antes havia sombra, vento, quintais vivos e encontros cotidianos. É um vazio silencioso, mas persistente, que surge quando o verde deixa de ser entendido como parte essencial da vida urbana.
Esse esvaziamento não é acidental. Ele nasce de escolhas urbanas que privilegiam o concreto, fachadas fechadas e a ocupação máxima do solo, em detrimento da ventilação natural, do sombreamento e dos espaços de convivência. Em Salvador, esse processo ganhou contornos ainda mais evidentes com a recente decisão da Prefeitura de colocar à venda dezenas de áreas verdes, distribuídas por bairros como Patamares, Itapuã, Barra, Rio Vermelho e São Rafael. Terrenos que antes integravam o suporte ambiental da cidade passam a ser tratados como ativos imobiliários.
A lógica da verticalização acelerada, muitas vezes sem diálogo com o entorno, reforça edifícios voltados para dentro, fachadas cegas e ambientes dependentes de ar-condicionado e iluminação artificial. O que se perde não é apenas a paisagem, mas a possibilidade de relação com o lado de fora: o vento que refresca, a sombra que protege, o silêncio filtrado pelas árvores. Perde-se também saúde, física e mental.
Estudos em urbanismo e arquitetura demonstram que a ventilação natural e o sombreamento adequado são determinantes para o conforto térmico e para a redução do consumo energético. Quando o verde desaparece, surgem efeitos coletivos: ilhas de calor, ar mais poluído, ruído excessivo e sensação de confinamento. As noites se tornam mais quentes, o descanso mais difícil e o espaço urbano, menos humano.
Muitas dessas áreas são classificadas como “antropizadas” ou “sem vegetação significativa”, um argumento técnico que oculta perdas reais: biodiversidade, equilíbrio hídrico, espaços de lazer e convivência comunitária. Pequenas áreas verdes, mesmo fragmentadas, têm impacto direto na qualidade de vida urbana.
Não se trata de negar o crescimento das cidades, mas de questionar como elas crescem. O “cheio” que precisamos cultivar não é o da área construída máxima, e sim o cheio de vida: árvores entre edifícios, praças acessíveis, jardins urbanos e espaços públicos que convidem ao encontro. Cidades que acolhem o verde acolhem também as pessoas.


