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O Baiano Tem o Molho: Pimentas, Cultura e Ancestralidade

Quem cuida de quem empreende?

Na Bahia, a comida é mais do que sustento; é um testemunho vibrante da história, ancestralidade e espírito festivo do estado. Entre seus tesouros culinários, o “molho” se destaca como um patrimônio cultural que atravessa séculos e oceanos.

Ter “o molho” na Bahia vai além de cozinhar bem; é uma atitude, uma forma de improvisar, ter ginga e celebrar a vida. Do atabaque ao prato, da roda de samba ao Oscar, o molho baiano simboliza criatividade e resistência.

Todo bom baiano possui o seu molho — um tempero único que mistura ancestralidade, ousadia e alegria, com pimenta como ingrediente essencial. Antes mesmo da colonização, os povos originários do Brasil já cultivavam e utilizavam diversas espécies de pimenta, que ganharam alma e tempero com a influência da diáspora africana. No tabuleiro das baianas de acarajé, o molho de pimenta não é apenas um acompanhamento; é um símbolo de resistência, fé e sabor. Cada colherada carrega memórias e a criatividade que transformou esse ingrediente simples em alquimia gastronômica.

Os molhos de pimenta baianos trazem para a mesa a explosão de sabor que só a Bahia sabe proporcionar. O dendê dança com a malagueta, o coentro se mistura ao alho e o limão dá o toque final, criando uma coreografia de sabores que remete a um som bem baiano. O molho baiano não é apenas um tempero; é uma performance, um swing.

O famoso molho lambão, feito com pimenta malagueta, vinagre e sal, é presença obrigatória em qualquer churrasco baiano. Já o molho de pimenta com dendê é inseparável do acarajé, representando a força da culinária afro-brasileira.
Nos terreiros, a ata, ou pimenta em iorubá, não é apenas um tempero, mas parte essencial da linguagem que conecta Exu, o orixá dos caminhos, da comunicação e da vitalidade. Guardião das encruzilhadas e da vida em constante fluxo, Exu é celebrado com comidas que incorporam a pimenta, símbolo de fogo, intensidade, dinamismo e transformação. A ardência da pimenta provoca reação imediata no corpo, atuando como elemento de proteção espiritual, afastando energias negativas e abrindo caminhos.

Se o baiano tem o molho, este é o molho que faz o pagode dançar no prato! Direto do tabuleiro da baiana, com dendê no coração e pimenta na alma, anote aí o molho que faz o acarajé piscar pra você. É quente, ancestral e cheio de axé — e se o baiano Wagner Moura fosse um molho, com certeza seria esse aqui! Bora aprender, porque esse molho não é só receita… é atitude baiana em forma de sabor!

Molho de Pimenta da Baiana

Ingredientes:
•⁠ ⁠Um punhado de diferentes pimentas
•⁠ ⁠Cebola, alho, sal, limão e azeite de dendê

Modo de Preparo:
1.⁠ ⁠Retire os talos das pimentas, higienize e reserve.
2.⁠ ⁠Corte a cebola em pequenos cubos e fatie o alho bem fininho.
3.⁠ ⁠Aqueça o azeite de dendê e refogue a cebola e o alho.
4.⁠ ⁠Acrescente as pimentas, o sal e cozinhe por 3 minutos.
5.⁠ ⁠Finalize com suco de limão.
6.⁠ ⁠Deixe esfriar, bata no liquidificador e viva sua experiência intensamente.

Fica a dica:
•⁠ ⁠Na feira, você encontra um pacotinho bem colorido com diferentes tipos de pimenta por um precinho.
•⁠ ⁠Para tirar a “ardência” do liquidificador, bata água com açúcar.
•⁠ ⁠Essa pimenta tem longa vida útil: na geladeira, dura até 6 meses.

Categories: Colunistas
Theresa Cristina: Criada em uma família festeira, T Cris, herdou da mãe, professora de artes culinárias, o gosto por fazer festas com muita comida. Cresceu em frente a uma feira livre, cercada por ingredientes regionais e pelos sabores diversos da culinária baiana, que marcam sua memória afetiva. Aos 50 anos, decidiu reinventar-se e mergulhou na gastronomia, unindo técnica e ancestralidade. Nos terreiros de candomblé, aprendeu que cozinhar é mais que alimentar—é preservar histórias e fortalecer identidades. Formada em Gastronomia e pós-graduada em Cozinha Brasileira, é mentora, instrutora e coautora do livro Sabores da Terra. Membro da Federação Italiana de Cozinheiros, recria os sabores das comidas dos terreiros e quilombos com inovação e respeito, celebrando a riqueza da comida afro-baiana.

View Comments (2)

  • Isso é posicionamento cultural na prática.
    O molho não é receita. É código identitário. Origem, atitude e narrativa viva.

    A Bahia não se explica. Se sustenta.
    E é isso que separa marcas com eixo de marcas genéricas. Quem tem raiz não força discurso, manifesta presença.

    Quando ancestralidade vira linguagem e prática, o posicionamento acontece sem performance.
    Não é storytelling. É verdade aplicada.
    E é isso que constrói marcas realmente inesquecíveis.

  • Você foi muito feliz falando desse item da culinária baiana fundamental para realçar os sabores e satisfazer o paladar. Parabéns pela dica tambem.

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