O carnaval é o tempo das máscaras.
Elas brilham, protegem, enfeitam.
Permitem ser outro, ou talvez ser quem sempre se foi, mas nunca pôde mostrar.

Mas algumas pessoas não usam máscaras apenas no carnaval.
Elas aprenderam a usá-las desde cedo.
Para a população negra, a máscara não é apenas fantasia.
Ela é, muitas vezes, estratégia de sobrevivência.
A máscara da força.
A máscara da alegria.
A máscara da resistência constante.
Historicamente, o corpo negro precisou sorrir mesmo cansado, seguir mesmo ferido, dançar mesmo em luto. A herança deixada não foi só cultural, foi também emocional. Um legado de silenciamento, de adaptação permanente, de alerta contínuo.
Na saúde mental, isso tem um custo alto.
Viver em estado constante de vigilância, tentando prever olhares, julgamentos e ameaças, mantém o cérebro em modo de defesa. O sistema nervoso não descansa. A mente não relaxa. A emoção não encontra espaço seguro para existir.
No carnaval, essa máscara ganha outro nome: fantasia.
Por alguns dias, o corpo negro é exaltado, celebrado, aplaudido.
Mas quando a música silencia, a exigência retorna:
seja forte, aguente, não reclame.
A pergunta que fica é: quem cuida quando a máscara cai?
Na clínica, é comum encontrar pessoas negras que chegam esgotadas, não apenas pelo presente, mas por uma história inteira de adaptação forçada. Muitas aprenderam que sentir demais era perigoso. Que demonstrar fragilidade não era uma opção. Que descansar era um luxo.
O problema é que o corpo sente.
O cérebro registra.
A emoção cobra.
Ansiedade, cansaço extremo, dificuldade de concentração, tristeza persistente, muitas vezes não são sinais de fraqueza, mas de uma mente que passou tempo demais se protegendo.
Falar sobre saúde mental da população negra é reconhecer que não se trata apenas de autocuidado individual, mas de contexto, história e reparação emocional. É entender que não basta celebrar a cultura se o sofrimento segue invisível.
O carnaval passa.
As máscaras são guardadas.
Mas o cuidado precisa permanecer.
Talvez o verdadeiro convite seja este:
que a população negra não precise mais usar máscaras para ser aceita, nem na festa, nem na vida.
E que exista espaço para ser inteiro:
com alegria, com dor, com descanso e com escuta.


