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Homens negros, excelência e contenção: o custo invisível da presença

Nos últimos meses, no trabalho de consultoria e acompanhamento em comunicação estratégica, tenho atendido um número proporcionalmente maior de lideranças negras. Em sua maioria, homens com trajetória acadêmica sólida, com mestrado ou doutorado, atuando como professores em instituições de referência, líderes institucionais, executivos, empreendedores ou ocupantes de cargos públicos e com uma dificuldade em comum: ocupar o seu espaço.


São profissionais com capital intelectual consistente, reconhecimento formal e posições reais de decisão.

Justamente por isso, me surpreendeu um padrão específico ter se repetido ao longo do acompanhamento comunicacional dessas lideranças. Há, em muitos casos, uma dificuldade prática de ocupar plenamente o espaço de autoridade que já lhes pertence. Não no discurso, mas na presença. No modo como chegam aos ambientes, se posicionam em contextos institucionais e reconhecem a própria centralidade.


A cadeira de destaque está reservada, mas não é imediatamente ocupada. O protocolo não foi organizado, mas a hierarquia é evidente. A expectativa institucional existe, mas o movimento é de contenção.
Esse padrão aparece também na dinâmica relacional. Há hesitação em iniciar abordagens estratégicas, dificuldade de solicitar apoio quando necessário ou de afirmar com clareza o próprio lugar em decisões-chave.


Outro ponto recorrente, observado ao longo do trabalho de comunicação, diz respeito à gestão da imagem pessoal. Não como questão estética superficial, mas como parte da estratégia. Elementos simples, como escolhas visuais e cuidados básicos, poderiam ampliar presença e coerência, sem qualquer conflito com identidade ou autenticidade.
Em posições de liderança, imagem é linguagem. Ela comunica antes da fala e organiza expectativas.


Quando uma liderança ocupa espaços de alta visibilidade sem cuidar da própria presença comunicacional, a autoridade existe, mas não se apresenta por inteiro. Isso impacta tanto a percepção externa quanto a experiência de exercer o papel.


Há ainda uma dimensão coletiva que não pode ser ignorada. A forma como homens negros em posições de destaque ocupam seus lugares produz referência. Meninos observam. Jovens profissionais observam. Outros líderes negros observam.


Esse é um tema que venho analisando de forma estratégica no meu trabalho em comunicação. Não como correção de comportamento, mas como cuidado com lideranças que já chegaram longe demais para continuar operando com contenção excessiva.


As violências simbólicas e institucionais fazem parte dessas trajetórias, da infância à academia, da formação à ascensão profissional. Ignorar isso seria irresponsável. Mas justamente por esse histórico, torna-se ainda mais importante revisar como a autoridade conquistada está sendo comunicada no presente.


No diagnóstico de comunicação, esse movimento aparece com clareza. Lideranças altamente qualificadas, com autoridade reconhecida, mas comunicando aquém do lugar que ocupam. Revisar essa dinâmica não é vaidade nem performance. É uma decisão estratégica, que impacta a forma como essa liderança é percebida, como atua no dia a dia e como deixa referências para quem vem depois.

Categories: Colunistas
Silvana Oliveira: Jornalista, estrategista de comunicação, presença e fundadora da SOW.

View Comments (2)

  • Excelente tema abordado. Não é diferente ou menos fácil para nós mulheres em ascensão socioeconômica e intelectual.

    Obrigada pela informação!!!

  • Fico com esse seu texto ressoando: quanta dor a história de alguém guarda para que o momento de sucesso deixe de ser apenas celebração para trazer à tona essas incertezas?
    Gosto muito do ponto que vocês traz de que essa superação transborda a esfera pessoal. Cada menino ou menina que vê Silvanas, Majus, Baracks, Jaquelines, Ernestos e Jaquelines pelo mundo é alguém que vai chegar no topo sem precisar se perguntar se ali é ou não o seu lugar.

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