
Há uma expectativa silenciosa e equivocada que paira sobre quem ocupa espaços públicos: a de contenção permanente, distanciamento simbólico e uma certa esterilidade emocional. No verão da Bahia, essa expectativa entra em choque direto com a realidade das ruas.
O Carnaval, especialmente o Carnaval de Salvador, não é apenas uma celebração coletiva. É um sistema sofisticado de comunicação. Tudo ali fala. O corpo que circula, o lugar escolhido, as companhias, os registros que se espalham pelas redes, a forma como se ocupa o espaço público. Nada é neutro. Nada é aleatório.
Observo que muitos confundem autenticidade com descuido e autoridade com rigidez, uma leitura que empobrece a comunicação e distancia lideranças das pessoas reais que elas representam. A festa, quando vivida com consciência, não fragiliza a imagem pública. Ao contrário, pode fortalecê-la.
Acompanhei recentemente a repercussão de um episódio que ilustra bem essa lógica. Um parlamentar participou de uma grande festa em sua cidade. Não se isolou em espaços protegidos, esteve na pipoca, seguiu o trio elétrico, circulou entre as pessoas, foi visto com copos de bebida, viveu a experiência que o território oferece acompanhado da esposa, dos pais, dos irmãos. Havia ali um contexto claro de convivência familiar, equilíbrio e presença genuína.
A leitura pública foi reveladora: não se consolidou a imagem do excesso nem da imprudência. O que emergiu foi a percepção de proximidade, um representante que compartilha códigos culturais, reconhece a rua como espaço legítimo e não precisa se esconder para sustentar autoridade.
Comunicação é interpretação de signos, assim, em uma grande festa popular, bebida, música e multidão não carregam, por si, significados negativos. O sentido nasce do conjunto, da coerência histórica, da consistência entre discurso e comportamento. O risco não está na exposição, mas na ausência de leitura estratégica sobre o que se comunica.
Nada é proibido no campo da experiência social. O limite não é moral, mas simbólico. Está em compreender o que se representa, o que se deseja comunicar e até onde essa comunicação deve ir. Autoridade não se dissolve quando há contato. Ela se enfraquece apenas quando falta autenticidade na identidade.
No verão baiano, entre trios elétricos, festas e ressacas, cada gesto constrói narrativa. A questão central não é se é permitido estar na pipoca. A pergunta que permanece é se estamos atentos ao que essa presença diz sobre quem somos e sobre o poder que exercemos.


