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Empreendedorismo feminino: Além do CNPJ, uma reconfiguração de poder

Escrevo com muita alegria para a coluna do Portal Pittaco, apontando uma temática que faz parte do meu dia a dia, a inclusão produtiva de mulheres, um tema que não pode ser romantizado, é importante apontar desafios e potencialidades, além de lembrar que políticas públicas são necessárias para uma sociedade com mais equidade.

Nós, mulheres, não partimos do mesmo ponto; partimos muito atrás. Enfrentamos a sobrecarga de trabalho gerada pela economia do cuidado, que nos foi atribuída culturalmente, e temos que lidar com uma sociedade construída sobre ideias que limitam nossas ações na política, no esporte e no mercado de trabalho. Mulheres, de modo geral, ganham menos que homens atuando na mesma função. Suas empresas, na maioria das vezes, são criadas por necessidade e não por oportunidade, o que dificulta o desenvolvimento do negócio pela falta de planejamento, organização e controle.

É possível perceber que tudo isso não se refere a uma questão biológica do ‘ser mulher’, mas a uma construção social que limitou, por séculos, os nossos espaços. Isso criou barreiras no acesso à cidadania e até no modo como as mulheres se veem e constroem seus negócios. Assim, entendi que não adianta trabalhar somente com o empreendedorismo em si; é necessário, antes, abordar as questões socioculturais que moldaram a estrutura emocional dessas mulheres. Muitas não acreditam que podem ser empreendedoras de sucesso: chamam seus negócios de ‘negocinho’ e têm muito medo de errar. No entanto, correr riscos calculados é uma das principais características de quem deseja empreender; se elas não conseguem arriscar, não crescem.

Para elas, o ato de empreender raramente nasce em um vácuo de privilégios. Ele nasce, muitas vezes, da necessidade de prover. Por isso, falar de empreendedorismo feminino não é apenas discutir estatísticas econômicas ou abertura de CNPJs; é falar sobre a reconfiguração do poder e o redesenho do futuro. Historicamente, a mulher — especialmente a mulher negra — sempre foi a gestora das comunidades, a cuidadora da família, a mãe, a doméstica. Aquela que teve seu lugar predefinido e silenciado pela sociedade desde cedo. Esse ‘DNA de sobrevivência’ vem se transformando em estratégia de mercado. Hoje, quando olhamos para os setores de economia criativa, gastronomia, moda e tecnologia, vemos que as mãos que balançam o berço são as mesmas que digitam planos de negócios e fecham contratos de exportação.

A importância desse movimento reside no investimento social direto. Estudos mostram que as mulheres reinvestem até 90% de sua renda em suas famílias e comunidades. No contexto baiano, isso significa mais crianças na escola, melhor nutrição e a revitalização de economias locais que o grande capital muitas vezes ignora. O empreendedorismo feminino é, portanto, uma ferramenta de distribuição de renda.

Um empreendimento gerido por mulheres não se fundamenta apenas na venda de um produto, mas na entrega de uma narrativa. Seja na produção de cacau fino no Sul do estado ou nas startups de impacto social no Subúrbio Ferroviário, há uma busca incessante por soluções que respeitem a nossa identidade. Elas não estão apenas ocupando o mercado; elas estão criando novos mercados.

Apesar do avanço, o desafio da ‘solidão empreendedora’ e do acesso ao crédito ainda é um gargalo. Precisamos transitar do ‘empreendedorismo por sobrevivência’ para o ‘empreendedorismo por potência’. E isso só será possível derrubando as barreiras sociais e culturais para os negócios geridos por mulheres. Apostar na mulher como gestora não é um ato de benevolência; é a decisão de negócio mais inteligente para o desenvolvimento do estado. A autonomia quebra ciclos de violência e traz liberdade. Além disso, quando uma mulher empreende, ela não caminha sozinha: ela leva consigo toda uma história e impulsiona o futuro de todos nós.

Efigênia Ferreira: Especialista em empreendedorismo feminino e diversidade, com foco na criação de políticas de inclusão produtiva que gerem impacto real na vida das pessoas. É gestora do HUB – Empreendedorismo e Diversidade e atua conectando pessoas, conhecimento e ação coletiva como ferramentas de transformação social e econômica. Sua missão é abrir caminhos para que mulheres e grupos diversos tenham mais autonomia, visibilidade e oportunidades de crescimento.

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  • Fantástico! Parabéns pela estreia maravilhosa no portal Efigênia ! Seu texto ficou incrível, coerente expressando a total realidade dos desafios da mulher empreendedora, além da sua leitura precisa sobre os passos para o avanço dessa mulher que se reinventa cada dia para ocupar seus espaços de poder! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

  • Efigênia tem um potencial ímpar, uma mulher a frente do seu tempo, sou suspeita a falar da sua visão empreendedora, pois tenho a honra de tê-la como uma das minhas Vice-presidentes da BPW de Vitória da Conquista-Ba.