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O Direito ao Desajuste: Notas de uma Pittacosa sobre a Leveza

Na minha última coluna, recebi um comentário que me descreveu de forma certeira: disseram que eu era “pittacosa”. Aceitei o adjetivo com o peito estufado e um sorriso no rosto. Para mim, ser pittacosa é ser a mulher que ocupa o espaço, que coloca a voz no mundo para construir conhecimentos e novos diálogos às vezes com o mel do respeito, outras com o sal da afronta. E como eu amo ser uma pittacosa, obrigada portal pittaco por isto.

Então, vamos para mais um “pittaco”…

A sugestão para este mês era falar sobre “leveza”. Logo agora, que mergulhei nas páginas cruas de Quarto de Despejo e nas feridas coloniais de Memórias da Plantação. Sendo sincera: eu não estava pensando em leveza. Entre o relato visceral de Carolina Maria de Jesus e as análises cortantes de Grada Kilomba, a palavra “suavidade” soa como um luxo estrangeiro, quase um privilégio distante.

Afinal, como falar de plumas quando estamos o tempo todo em alerta, nos preparando para a selva da sobrevivência diária? Esse estado de vigília constante não apenas pesa; ele adoece a alma e tenciona o ombro até a orelha. A gente não relaxa, a gente apenas “espera o próximo golpe”.

Por isso, meu convite hoje é ao desajuste. Ou melhor, ao ajuste. Porque desajustado, de verdade, é um mundo que nos exige pressa, luta e armadura 24 horas por dia.

Cuidar de si não é apenas gastar fortunas em skincare (embora uma máscara de argila tenha seu valor ). Cuidar-se é um ato político. É construir rede, é rir de uma piada simplória até a barriga doer, é perder-se em um livro que não seja técnico. É, acima de tudo, declarar greve por tempo indeterminado da função de “mulher-maravilha”.

Permitir-se o lazer, o sorvete sem pressa, o encontro com as amigas para falar de nada (ou de tudo), e habitar lugares que te fazem bem, é a maior das rebeldias. Em um sistema que lucra com o nosso esgotamento e que se alimenta da nossa exaustão, ser feliz e estar descansada é uma afronta de primeira categoria. E, agora vocês já sabem, eu adoro ser pittacosa e afrontosa.

Não se engane: o mundo quer nos ver tristes, curvadas e ocupadas demais para sonhar. Quando a gente escolhe a leveza, a gente quebra o ciclo. A gente retoma o território mais importante que possuímos: o nosso próprio bem-estar.

Que a nossa leveza não seja omissão, mas sim o combustível para que a luta não nos devore. Que a gente aprenda que descansar não é desistir, é estratégia para continuar inteira.

Meu “pittaco” final? Desajuste-se dessa engrenagem que te quer exausta. Vá ser leve, vá ser feliz, vá tomar seu sorvete e rir alto. Afrontar o mundo com a nossa alegria é a ferramenta mais poderosa que temos.

Sejamos, hoje e sempre, deliciosamente pittacosas.

Efigênia Ferreira: Especialista em empreendedorismo feminino e diversidade, com foco na criação de políticas de inclusão produtiva que gerem impacto real na vida das pessoas. É gestora do HUB – Empreendedorismo e Diversidade e atua conectando pessoas, conhecimento e ação coletiva como ferramentas de transformação social e econômica. Sua missão é abrir caminhos para que mulheres e grupos diversos tenham mais autonomia, visibilidade e oportunidades de crescimento.