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Bloco Alvorada celebra o centenário de Mãe Olga do Bate Folha no Carnaval de 2026

“Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé” transforma a avenida em rito de memória, identidade e resistência.

Um desfile que começa no sagrado

Antes de ser avenida, é chão consagrado. Antes de ser samba, é reza, folha e mar. No Carnaval de 2026, o Bloco Alvorada transforma a Sexta-feira da folia em um grande rito público ao celebrar o centenário de Mãe Olga Conceição Cruz, a Nengua Guanguacese, uma das mais importantes sacerdotisas da nação Angola e referência histórica do Terreiro Bate Folha – Manso Banduquenqué.

Com o tema “Nengua Guanguacese: 100 anos de mar, folha e fé”, o primeiro bloco de samba do Carnaval de Salvador reafirma o samba como expressão legítima da cultura negra, da espiritualidade afro-brasileira e da memória que resiste ao tempo e ao apagamento.

Entre a avenida e o terreiro: memória que atravessa gerações

A homenagem não é apenas biográfica. Ela se inscreve na história da cidade e de suas práticas culturais. Nascida em 17 de março de 1925, Mãe Olga foi iniciada aos 24 anos por Pai Bandanguame (Antônio José da Silva) e recebeu sua dijina do nkisi Kukueto, divindade das águas profundas, da serenidade e da criação. Foram 74 anos de sacerdócio, dedicados à preservação do candomblé Angola e à condução espiritual de centenas de filhos e filhas de santo.

O Terreiro Bate Folha, onde construiu seu legado, é reconhecido como o primeiro terreiro tombado pelo Iphan, marco fundamental para o reconhecimento das religiões de matriz africana como patrimônio cultural brasileiro. Ao levar essa história para a avenida, o Alvorada rompe a fronteira entre o sagrado e o popular, reafirmando que ambos caminham juntos na formação da identidade baiana.

Mar, folha e fé: uma narrativa simbólica

A construção estética e conceitual do desfile se ancora em três forças que traduzem a caminhada de Nengua Guanguacese:

  • O mar, domínio de Kukueto, representa o movimento da vida, a criação e a continuidade.
  • A folha, elemento central do candomblé, simboliza cura, saber ancestral e energia vital.
  • A fé, expressa no branco que toma a avenida, é o elo que conecta o terreiro ao samba, o tambor ao corpo, o ritual ao povo.

Essa tríade organiza não apenas o desfile, mas a leitura simbólica de um Carnaval que se afirma como espaço de reverência, e não de caricatura.

Mulheres negras como guardiãs do axé

Celebrar Nengua Guanguacese é também reconhecer o papel histórico das mulheres negras que sustentam os terreiros, preservam saberes e moldam a espiritualidade da Bahia. Para o presidente do Bloco Alvorada, Vadinho França, a homenagem é um gesto político e ancestral.

“É o reconhecimento da força feminina que, com paciência e coragem, transforma o cuidado em ato político e o axé em lição de vida.”

A fala ecoa uma compreensão ampliada de cultura: aquela que entende o cotidiano, o cuidado e a fé como práticas de resistência.

O samba como experiência viva

Em 2026, o desfile da Sexta-feira de Carnaval contará novamente com grandes nomes do samba baiano. A ala de cantoreunirá Bira (Negros de Fé), Arnaldo Rafael, Romilson (Partido Popular), Marco Poca Olho, Valdélio França, Tiago Dantas (Representa) e Rogério Bambeia, além das participações especiais de Marquinho Sensação, Renato da Rocinha e Roberto Mendes.

Mais do que um espetáculo musical, o cortejo reafirma o samba como linguagem espiritual, social e política — um samba que não se limita ao entretenimento, mas carrega memória, pertencimento e identidade.

Encantamento e legado

Com sua partida em 25 de abril de 2023, aos 98 anos, Mãe Olga se encantou. Mas seu legado permanece vivo nos ritos, nas folhas, nas águas e nos corpos que seguem cantando, dançando e cuidando. O desfile do Alvorada transforma esse legado em experiência coletiva, compartilhada, acessível — um gesto de reparação simbólica em plena avenida.

Alvorada: o nascer do Carnaval

Fundado em 1º de janeiro de 1975, por jovens estudantes do Colégio Severino Vieira — entre eles Vadinho França, também fundador da Unesamba, que reúne os nove blocos de samba da folia baiana —, o Bloco Alvorada nasceu no bairro do Gravatá com uma missão clara: inaugurar a Sexta-feira de Carnaval, abrindo oficialmente a festa em Salvador.

Seu nome simboliza esse papel: anunciar o nascer do Carnaval, o despertar da alegria e da tradição do samba. Ao longo de cinco décadas, o bloco manteve sua essência: repertório próprio, ala de canto com artistas da terra, ala das baianas, passistas e o inconfundível galo de três metros, que abre o cortejo.

Fora da avenida, o Alvorada também se afirma como agente cultural permanente, promovendo ações como a Feira de Empreendedores Negros, o tradicional caruru que marca o início dos ensaios e a Lavagem da Fonte de Nanã — rituais que reforçam a ligação espiritual com o Terreiro Bate Folha e com a religiosidade afro-baiana.

Quando o Carnaval vira documento

Ao homenagear Nengua Guanguacese, o Bloco Alvorada transforma o Carnaval em documento vivo da história negra da Bahia. Um desfile que não apenas celebra, mas ensina; que não apenas passa, mas permanece. Porque memória, quando é cantada e dançada, não se apaga — se renova.

*Essa publicação faz parte do Especial AFRO BAHIA.

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