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Contracolonialismo: a vida que não cabe no projeto colonial

A ideia de que a colonização ficou no passado não se sustenta quando observamos a realidade brasileira. A concentração de terras, o racismo estrutural e o apagamento sistemático de saberes negros e indígenas mostram que o colonialismo apenas mudou de forma. Como afirma Nêgo Bispo, “a colonização não acabou, ela se atualizou”. É desse enfrentamento cotidiano que emerge o contracolonialismo.

Formulado por Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, o contracolonialismo não nasce como teoria acadêmica, mas como leitura política de uma experiência histórica concreta. Ele parte da vivência de povos quilombolas e indígenas que, desde a invasão colonial, recusaram a submissão. Nêgo Bispo lembra que “os quilombos não foram criados para enfrentar o sistema, mas para continuar vivendo do nosso jeito”. Essa continuidade é, por si só, uma forma radical de resistência.

Essa compreensão leva o olhar sobre a colonização. Ela não terminou; apenas se reorganizou. Hoje, se expressa na mercantilização da terra, na hierarquização dos saberes e na naturalização de desigualdades. Por isso, o contracolonialismo não propõe um novo projeto de mundo, mas afirma a recusa a um projeto que transforma a vida em negócio. Nas palavras de Nêgo Bispo, “o colonialismo quer nos convencer de que só existe um jeito certo de viver”, e é justamente essa imposição que está em disputa.

O território ocupa lugar central nesse conflito. Na racionalidade colonial, a terra é propriedade e recurso econômico. Já para povos quilombolas e indígenas, o território é vida. Nêgo Bispo sintetiza essa diferença ao afirmar que “não é a terra que nos pertence, nós é que pertencemos à terra”. Defender o território, portanto, não é apenas uma reivindicação material, mas uma defesa da própria existência coletiva.

Ao afirmar que “o problema nunca foi a diferença, foi a tentativa de eliminar a diferença”, Nêgo Bispo desmonta a ideia de atraso associada aos modos de vida tradicionais. Esses modos não são resquícios do passado, mas respostas atuais a um mundo marcado pela destruição ambiental, pelo esgotamento das relações sociais e pela concentração de poder.

Essa leitura dialoga com Aníbal Quijano ao evidenciar que o fim formal da colonização não desfez suas estruturas. A colonialidade do poder continua definindo quem tem acesso à terra, ao conhecimento e aos direitos. No Brasil, isso se manifesta no racismo estrutural e na violência contra comunidades tradicionais — realidades que confirmam que a colonização permanece operando.

Reduzir o contracolonialismo a um conceito teórico é repetir a lógica colonial que separa pensamento e vida. Como diz Nêgo Bispo, “primeiro vem a prática, depois vem o nome”. O contracolonialismo já existe nas formas comunitárias de organização, nos modos próprios de educar, cuidar e existir. A teoria surge depois, como ferramenta de fortalecimento das lutas que sempre estiveram em curso.

Fica, então, a provocação: se o colonialismo ainda estrutura nossas instituições, valores e políticas, estamos realmente dispostos a aprender com quem nunca deixou de resistir?

Categories: Colunistas
Eli Britto: Economista apaixonada por inovação e desenvolvimento humano. Atua como especialista em gestão de portfólio e pequenos negócios. Apresentadora do Pod+Pretas.
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