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Bloco Afro Bankoma: quando o carnaval é missão, fé e continuidade ancestral

Do terreiro à avenida, o Bankoma transforma o carnaval em rito coletivo de identidade e resistência

Onde a festa começa antes do som

Antes de ser bloco, o Bankoma é fundamento. Antes de ocupar a avenida, ocupa o terreiro. Nascido dentro do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, em Lauro de Freitas, o Bloco Afro Bankoma carrega uma compreensão profunda do carnaval como missão espiritual, cultural e comunitária — uma extensão viva do candomblé Angola no espaço público da cidade.

Da linhagem de Joãozinho da Goméia e Mãe Mirinha de Portão, o Bankoma se estrutura a partir da ancestralidade Bantu e da orientação espiritual de Martim Pescador, entidade que guia o coletivo desde sua criação. O que se vê na avenida não é espetáculo isolado, mas o desdobramento de um processo que começa no sagrado.

Bankoma: povo em festa, povo em conexão

O nome Bankoma, de origem Bantu, significa “pessoas, povo em festa”. Mais do que um título, ele traduz um princípio organizador: fé, cultura, alegria e resistência caminham juntas. O símbolo do bloco, inspirado em um antigo símbolo Bakongo, ligado às tradições Congo/Angola, carrega um sentido cosmológico profundo, reafirmando o elo entre espiritualidade e identidade africana.

Para Mameto Kamurici, liderança espiritual e uma das principais vozes do coletivo, o Bankoma nasce com um propósito que ultrapassa a lógica do entretenimento.

“O bloco não é apenas carnaval. Ele é uma missão de conexão entre todas as nações, porque o candomblé, enquanto palavra de origem Bantu, define justamente essa união dos povos.”

A fala revela o que sustenta o bloco: a ideia de que o carnaval pode ser ferramenta de união, educação e pertencimento.

Das oficinas comunitárias à avenida

A trajetória do Bankoma começa em 1995, a partir de oficinas abertas promovidas pela Associação Terreiro São Jorge Filho da Goméia para jovens da comunidade de Portão. Música, dança, costura, confecção de adereços e estética formavam um ambiente de aprendizado coletivo, onde cultura e identidade eram trabalhadas como prática cotidiana.

O desejo de levar para além do território tudo o que era produzido ali deu origem ao bloco. Em 2000, o Bankoma estreou no Carnaval de Lauro de Freitas. Já em 2001, passou a integrar oficialmente o Carnaval de Salvador, o maior carnaval de rua do planeta.

Hoje, parte dos jovens que participaram das primeiras oficinas integra a banda Bankoma e a ala de dança, evidenciando a força da continuidade geracional e da formação comunitária como eixo central do projeto.

Carnaval como educação cultural e espiritual

© Erivan Morais

O Bankoma leva para a avenida músicas, ritmos, nomenclaturas e símbolos do candomblé, sempre com respeito absoluto às religiões de matriz africana. Cada tema nasce da espiritualidade de Martim Pescador, que orienta não apenas o conceito, mas também fragmentos do refrão e da musicalidade.

A partir dessa orientação, o tema é debatido coletivamente no terreiro, em um processo de escuta e construção compartilhada.

“O processo é coletivo. Toda a comunidade participa, opina, constrói. Cada pessoa contribui do seu jeito”, explica Mameto Kamurici.

Esse método transforma o bloco em um espaço permanente de educação cultural e espiritual, onde nada é apresentado sem fundamento.

O caçador que acolhe: simbologia e cuidado

Em seu tema de 2026, o Bankoma apresenta a figura do caçador que acolhe, representado pelo arco e flecha que carrega, em seu interior, todos os Mkises, de Nzila a Lemba. Não se trata de caça predatória, mas simbólica: a busca pela fartura, pela oportunidade e pela abundância espiritual e material para a comunidade.

“É uma caça de acolhimento, de trazer para dentro do terreiro aquilo que alimenta o corpo e o espírito”, sintetiza Mameto.

A simbologia reafirma o carnaval como espaço de cuidado, cura e partilha.

Empoderamento, inclusão e protagonismo comunitário

O Bankoma também se consolida como instrumento concreto de inclusão social. Grande parte das fantasias é distribuída gratuitamente, garantindo que o povo de santo, muitas vezes impedido de participar do carnaval por questões financeiras, possa ocupar a avenida com dignidade.

A ala de dança, formada por mulheres da comunidade de Lauro de Freitas, Portão e Salvador, é um dos símbolos mais potentes desse protagonismo. Muitas começaram ainda crianças e seguem no grupo até a vida adulta.

“Quando elas vestem a roupa da dança, elas se transformam. Elas viram rainhas. Isso é empoderamento”, afirma Mameto.

Na música, jovens da comunidade — muitos sem formação acadêmica formal — ocupam o trio elétrico e dividem espaço com grandes bandas, reafirmando o talento negro e periférico como centro da festa.

Capoeira, quilombos e a rede dos terreiros

O desfile do Bankoma incorpora também a capoeira, após uma longa luta pelo reconhecimento e certificação dos mestres, inclusive com apoio do Governo Federal. Exalta ainda a presença das baianas de candomblé, mulheres de terreiro que representam a Bahia real, distante dos estereótipos turísticos.

O bloco articula a participação de quilombos, como o Quilombo de Tijuaçu, e envolve cerca de 450 terreiros, por meio da Acbantu e de uma ampla rede que conecta comunidades da capital, da ilha e do interior do estado.

Carnaval como fé, cura e resistência

“O Bankoma é fé, é candomblé, é povo de santo, mas também é carnaval”, resume Mameto Kamurici. Para além da festa, o bloco funciona como terapia coletiva, espaço de encontro, alegria e fortalecimento espiritual — uma preparação simbólica para enfrentar o ano e retornar à avenida no carnaval seguinte.

No maior carnaval de rua do planeta, o Bloco Afro Bankoma segue afirmando sua identidade com clareza: raiz africana, ancestralidade viva, resistência cultural e alegria como ato político.

  • Rede social: @afrobankomaoficial.
  • Vendas:
  • •⁠  ⁠Sede Afro Bankoma (Terreiro São Jorge Filho da Goméia/Lauro de Freitas – Portão).
  • •⁠  ⁠⁠Acbantu/Pelourinho
  • •⁠  ⁠⁠Samba Vivo/Shopping Piedade
  • Mais informações: Soraia (71) 98205-8912

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