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As tendências 2026 da arquitetura de interiores para o morar

Em 2026, a arquitetura de interiores se afirma como contraponto sensível à verticalização das cidades, priorizando afeto, memória e pertencimento.

Entre afrodecoração, memória e afeto, a arquitetura de interiores se torna o principal território de expressão identitária em uma Salvador cada vez mais vertical.

Quando a expressão “casa com cara de casa” ganhou repercussão no final de 2025, impulsionada por uma fala do cantor João Gomes, ela soou quase óbvia. Ainda assim, encontrou ressonância imediata. Não por trazer algo novo, mas por nomear um incômodo que já vinha sendo sentido de forma difusa: o distanciamento entre as casas que habitamos e a vida real que acontece dentro delas. Mais do que uma opinião pessoal, ali havia um sinal de época. A questão que permanece é se esse desejo se sustenta como mudança ou se será absorvido como mais uma tendência de mercado.

Esse debate, no entanto, precisa ser atravessado pela realidade urbana atual. Salvador, por exemplo, apresenta-se hoje como uma uma cidade profundamente verticalizada, onde as casas térreas voltadas para a rua, com quintal, varanda e relação direta com o entorno, tornaram-se exceção. O cotidiano acontece majoritariamente em apartamentos, em edifícios que se fecham para fora por razões de segurança, ruído e dinâmica urbana. Nesse contexto, falar em “casa com cara de casa” não é, na maioria das vezes, falar de fachadas abertas, portas escancaradas ou da rua como extensão do lar. É falar, sobretudo, do que acontece da porta para dentro.

É nesse território interno que as tendências para 2026 realmente ganham corpo. A arquitetura de interiores assume o papel de reconstruir vínculos simbólicos, afetivos e culturais que o espaço urbano já não permite externamente. Relatórios de comportamento, como o Pinterest Predicts, ajudam a evidenciar esse movimento ao apontar a valorização de estéticas ligadas à memória, à ancestralidade e às referências afrodescendentes. O crescimento da afrodecoração não indica apenas uma escolha visual, mas um desejo de acolhimento, pertencimento e reconhecimento. A casa volta a ser entendida como extensão da identidade de quem a habita.

Dentro dos lares, a neutralidade absoluta perde força. Ambientes excessivamente brancos, silenciosos e genéricos já não dão conta da complexidade emocional do cotidiano. Entram em cena objetos afetivos, peças artesanais, mobiliários com história, cores quentes, texturas naturais e referências culturais explícitas. Fotografias, itens herdados, objetos escolhidos pelo significado, e não pela padronização, passam a ocupar o centro do projeto. O interior deixa de ser neutro e passa a ser narrativo. Cada espaço conta uma história, carrega memória, vivência e intenção. Essa transformação também revela um cansaço coletivo do morar padronizado. Em uma cidade onde muitos edifícios se parecem, os interiores tornam-se o último espaço de individualidade. É ali que se constrói conforto emocional, reconhecimento e permanência. A afrodecoração, nesse cenário, não surge como tendência importada, mas como reconhecimento de matrizes que sempre estiveram presentes na forma de morar brasileira, embora historicamente invisibilizadas.

Mais do que uma tendência estética, trata-se de uma reorientação de projeto. Pensar as casas: é projetar para o afeto, para o encontro, para a permanência. É reconhecer que arquitetura não é apenas forma, mas experiência e que, quando o espaço faz sentido, ele sustenta a vida que acontece dentro e fora dele.

Categories: Colunistas
Karine Venceslau: Arquiteta especializada em arquitetura de interiores comerciais e residenciais. Desenvolvo projetos com foco em identidade, funcionalidade criando ambientes que comunicam valores, acolhem pessoas e fortalecem marcas e histórias. Cada espaço é pensado para cumprir seu propósito com estética, clareza e intenção.

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