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A Morte do MVP de Papelão: Usando IA para Descobrir a Verdade (Rápido)

Quem cuida de quem empreende?

No Vale do Silício, existe uma máxima antiga que diz: “Se você não tem vergonha da primeira versão do seu produto, você demorou demais para lançar”. Essa frase, popularizada por Reid Hoffman, era o mantra da era do software artesanal.

Mas as regras mudaram. E a maioria dos fundadores (e investidores) ainda não recebeu o memorando.

Antigamente, “lançar rápido” significava gastar três semanas hackeando um MVP (Produto Mínimo Viável) cheio de bugs ou criando uma landing page que era basicamente uma “porta falsa” para capturar e-mails. Era o famoso “fake it until you make it”.

Hoje, com a Inteligência Artificial generativa, o custo marginal de construir software funcional caiu para perto de zero. A barreira entre “tive uma ideia” e “aqui está o produto rodando” deixou de ser técnica e passou a ser puramente de vontade.

Se você ainda está usando PowerPoint para validar uma ideia técnica, você já está atrasado.

O Fim da “Mentira” na Validação

O problema clássico da validação de startups é o “Teste da Mãe” (The Mom Test). Você pergunta para alguém se ela usaria seu produto, e ela mente para não ferir seus sentimentos. Ou pior, ela diz que “com certeza pagaria”, mas quando você envia o link de pagamento, ela desaparece.

A IA elimina a necessidade de perguntar “se”. Ela permite que você teste o “como”.

Em vez de desenhar wireframes no Figma e perguntar o que o usuário acha, fundadores inteligentes estão usando LLMs (como GPT-4 ou Claude 3.5 Sonnet) combinados com ferramentas de no-code ou ambientes de desenvolvimento assistido (como Cursor) para entregar uma solução real em uma tarde.

Insight Prático:

Não pergunte ao cliente se ele quer uma ferramenta que organiza os e-mails dele. Use a API da OpenAI para criar um script simples que realmente resume os últimos 10 e-mails dele e envie o resultado.

*   Se ele disser “uau, isso me poupou 20 minutos”, você tem validação.

*   Se ele disser “legal”, você tem educação.

*   Se ele ignorar, você economizou 6 meses de desenvolvimento.

A IA permite que você venda o resultado antes de construir a infraestrutura.

O VC como Compilador de Realidade

Para os investidores Anjo e VCs lendo isso, a IA mudou a forma como devemos avaliar a capacidade de execução de um fundador.

Há dois anos, se um fundador técnico pedisse R$ 200 mil para construir um MVP de um marketplace de nicho, parecia razoável. Hoje, isso é um sinal vermelho gigantesco.

Por quê? Porque a competência técnica básica foi comoditizada. O diferencial competitivo não é mais quem consegue escrever o código, mas quem consegue orquestrar a IA para resolver o problema do usuário final.

Se um fundador chega até você com um deck de 20 slides e zero código, ele não está sendo “lean”. Ele está sendo preguiçoso. A IA é a nova alavanca de Arquimedes. Se o fundador não está usando essa alavanca para mover o mundo (ou pelo menos mover o produto), ele provavelmente será esmagado por alguém que está.

O Advogado do Diabo Sintético

Aqui está uma aplicação subutilizada da IA na validação: destruir o próprio ego.

Nós, humanos, somos máquinas de viés de confirmação. Apaixonamo-nos pelas nossas soluções e ignoramos os problemas. A IA não tem ego.

Antes de gastar uma linha de código ou um centavo de marketing, configure um agente de IA com o seguinte prompt:

⁠”Atue como um investidor de Venture Capital cético e especialista no mercado [X]. Eu vou te apresentar minha ideia de startup. Sua função é encontrar todas as falhas lógicas, riscos de mercado e razões pelas quais isso vai falhar. Seja brutal. Não seja educado.”

Isso é o que eu chamo de Validação Adversária.

Você ficará surpreso com o quão doloroso (e preciso) um feedback sintético pode ser. Ele vai apontar concorrentes que você esqueceu, falhas na sua economia unitária e problemas de distribuição. Use a IA para simular o mercado antes de enfrentar o mercado real. É mais barato falhar numa janela de chat do que no mundo real.

A Armadilha da Facilidade

Um alerta sóbrio no meio da euforia: *Construir ficou fácil, mas se importar continua difícil.*

Só porque a IA permite que você crie 10 funcionalidades novas por semana, não significa que você deve. A facilidade de criação pode levar ao inchaço do produto (feature creep) em velocidade recorde.

A validação real não é sobre o código que a IA gera, mas sobre a transação humana que ocorre na ponta final. A IA é uma ferramenta para acelerar a chegada à verdade, não para substituir a necessidade de falar com humanos, entender a dor e fechar a venda.

Não confunda a capacidade de gerar output com a capacidade de gerar valor.

Conclusão: A Velocidade é o Único Fosso

No ecossistema atual, o “primeiro a mover” (first mover advantage) é menos importante do que o “mais rápido a aprender”.

A IA comprimiu os ciclos de feedback. O que levava meses (construir -> medir -> aprender), agora pode levar dias. Seus concorrentes não são mais apenas as grandes empresas de tecnologia; são dois garotos em uma garagem com um laptop e uma assinatura do ChatGPT Plus que podem clonar e melhorar sua feature principal em 48 horas.

Sua lição de casa:

Pegue a ideia que você está “planejando” há meses. Use IA para construir uma versão funcional (feia, mas funcional) dela hoje. Não amanhã. Hoje. Coloque na mão de um usuário e peça dinheiro.

A verdade dói, mas a mentira do “vou validar depois” mata sua startup lentamente. Escolha a dor da velocidade.

Iago Santos: Empreendedor e designer gráfico que ama aprender. Fundador e CEO do TrazFavela e cocriador de vários negócios. Mentor, investidor e consultor em comunicação, especialista em inovação digital.