
Há séculos, o corpo da mulher negra carrega não apenas sua história, mas também o peso simbólico de um país que, por muito tempo, aprendeu a enxergar esse corpo como força, e não como fragilidade; como trabalho, e não como cuidado; como resistência, e não como existência. Desde o período escravocrata, a mulher negra foi colocada na linha de frente da sobrevivência, parindo, alimentando, cuidando, curando e sustentando, sem nunca lhe ser permitido parar. Esse legado histórico se reflete até hoje, em nossos corpos cansados, em nossos silêncios, em nossas dores físicas e emocionais normalizadas pela sociedade. A imagem da “mulher negra forte” é uma armadilha. Ela nos orgulha e nos aprisiona. Porque, se somos fortes o tempo todo, onde cabe o descanso? Onde cabe o choro? Onde cabe o cuidado? A força que tanto nos admiram tem custado caro: a hipertensão que surge cedo, o sono que não vem, a ansiedade que corrói, o coração que vive em alerta.
O racismo não se manifesta apenas em olhares e palavras, ele se infiltra nas estruturas, nas oportunidades, nos atendimentos de saúde, nas relações de trabalho e até na forma como nós mesmas passamos a nos enxergar. Estudos mostram que mulheres negras têm menor acesso a atendimentos de qualidade, são menos ouvidas nas queixas de dor e enfrentam mais barreiras emocionais e financeiras para buscar ajuda psicológica. Isso não é coincidência — é consequência de um sistema que ainda insiste em negar nossa humanidade plena. Mas há também potências. Há em nós uma sabedoria ancestral que nos ensina o caminho do reequilíbrio. Há em nossas avós e mães o conhecimento, acolhimento, palavras que curam. Há em cada roda de conversa, em cada abraço, em cada “tá tudo bem?” verdadeiro, um ato de resistência e autocuidado. Cuidar do corpo é também cuidar da memória. É honrar quem veio antes e garantir que as próximas gerações não precisem carregar tanto peso para existir.
Precisamos nos permitir ser frágeis, humanas, inteiras, não apenas guerreiras. Precisamos exigir dos serviços de saúde um olhar que acolha, e não apenas trate. Precisamos ressignificar o autocuidado: não como luxo, mas como ferramenta de libertação. Ser mulher negra é resistir, sim, mas é, sobretudo, existir com dignidade, saúde e amor próprio. Nosso corpo não é apenas resistência. É história, é beleza, é cura, é poder.


